Filosofia·May 12, 2026·12 min de leitura

Ruslan Averin: Filosofia de investimento, abordagem ao mercado e princípios de carteira

A Origem

Comecei a negociar em 2011. A Grécia implodiu — dívida soberana a 40 cêntimos por dólar, bancos europeus em quarentena do sistema financeiro, o BCE ainda a debater se deveria agir. Eu comprava.

Perdi em algumas dessas posições e ganhei noutras. Mas a lição global valeu mais do que o resultado financeiro: os mercados precificam o medo, não os fundamentos. Quando todos têm a certeza de um resultado, o preço já o reflete. Quando ninguém consegue ver uma saída, os ativos ficam baratos o suficiente para importar.

Essa observação — o preço a divergir do valor sob pressão — tem sido o alicerce de cada posição significativa que tomei desde então.

Quatro Perguntas Antes de Qualquer Operação

Antes de entrar em qualquer posição, trabalho quatro perguntas em sequência:

1. Qual é o valor fundamental?

Não o objetivo de consenso. A minha própria estimativa. Para ações: fluxo de caixa descontado com uma taxa de crescimento terminal conservadora e uma taxa de desconto que reflita o risco real, não a taxa sem risco mais um ajuste de folha de cálculo. Para imobiliário: rendimento líquido após impostos, manutenção e vacância. Para obrigações: rendimento real após a inflação esperada.

Se não consigo responder a esta pergunta, não negocio.

2. Qual é o preço atual em relação a esse valor?

Quero uma margem de segurança — não de 2-3%, mas uma margem real. Mínimo de 20-30% para ações. Em situações deep value (dificuldades, spin-off, deterioração temporária), quero 40% ou mais. Se o preço estiver igual ou acima do valor, aguardo. Na maior parte do tempo, estou à espera.

3. Qual é o catalisador específico?

Valor sem catalisador é uma armadilha. Um desconto profundo pode ficar ainda mais profundo. Em 2011, a dívida grega tinha um vendedor forçado (bancos europeus a reduzir a exposição soberana), um piso político (a intervenção do BCE era quase certa) e um evento de reinício (reestruturação + haircut). Tinha uma tese sobre quando e por que o desconto se fecharia.

Sem essa tese, mesmo um desconto de 50% é apenas um número.

4. Qual é a perda permanente máxima?

Esta é a pergunta mais importante. Não "onde está o meu stop" — isso é uma ferramenta. A pergunta é: se a minha tese estiver completamente errada, qual é o prejuízo permanente de capital? Consigo operar normalmente após essa perda?

Dimensiono as posições de modo a que uma perda permanente — não um drawdown a preço de mercado — não altere a minha vida financeira. Isso significa 3-7% da carteira por posição, com apostas de alta convicção raras a chegar aos 10-12%.

Como Penso em Cada Classe de Ativo

As ações são o núcleo da carteira. Concentro-me em empresas que geram fluxo de caixa livre consistente, o devolvem aos acionistas e transacionam com um desconto sobre o valor intrínseco. Não compro histórias de crescimento. Compro fluxos de caixa atuais com desconto.

As obrigações são uma alocação tática. Num ambiente de taxas normal, as ações dominam. Quando os rendimentos reais da dívida corporativa investment grade sobem acima de 3-4%, as obrigações tornam-se interessantes numa base ajustada ao risco. Com os spreads IG de 2026, o argumento relativo é mais claro do que tem sido em anos.

As opções servem dois propósitos. Primeiro: rendimento sobre posições em ações através de calls cobertos em posições onde venderia de qualquer forma ao preço de exercício. Segundo: risco definido em ideias especulativas onde quero um limite rígido no risco de descida. Não escrevo puts nus para rendimento — o risco de cauda não é adequadamente compensado.

O imobiliário é sobre rendimento, não sobre valorização. Se o rendimento líquido após todos os custos não for superior a 6-7%, não estou interessado. Existem exceções para mercados de procura estrutural onde a compressão de rendimentos é impulsionada por fundamentos genuínos e não por alavancagem.

Três Comportamentos que Realmente Custam Dinheiro

Após quinze anos, a maioria das perdas remonta a um de três padrões:

Deriva de tese. Compra-se algo por causa de um catalisador específico. O catalisador falha. Em vez de sair, encontra-se uma nova razão para ficar. É assim que perdas de 3-5% se tornam perdas de 30-50%. A regra é simples: se a tese original foi quebrada, sair. Uma nova tese requer uma nova decisão de entrada, não uma racionalização.

Dimensionar para a subida. Quando uma posição está a funcionar, a tentação é adicionar. Quando não está, as racionalizações multiplicam-se. O comportamento correto é o oposto: dimensionar na entrada, com base no risco de descida, antes de a posição se mover.

Ignorar a liquidez. Ações small cap, imobiliário ilíquido e opções muito fora do dinheiro partilham uma característica: não é possível sair quando as condições mudam. Em cenários de stress, a iliquidez converte perdas geríveis em liquidações forçadas. A liquidez tem um custo. Vale a pena pagá-lo.

A Revisão Semanal

Cada segunda-feira antes de os mercados abrirem, faço uma revisão fixa:

  • Posições vs. tese: a razão de entrada original ainda está intacta?
  • Sinais macro: VIX, DXY, spreads de crédito (IG e HY), inclinação da curva de rendimentos
  • Resultados e guidance: há revisões materiais nas estimativas de fluxo de caixa livre?
  • Concentração da carteira: estou dentro dos limites de posição e setor que estabeleci na entrada?

Não se trata de prever os mercados. Trata-se de verificar que as posições que detenho ainda correspondem às teses com que entrei.

Sobre a Paciência

A maioria dos mercados está razoavelmente valorizada na maior parte do tempo. A proporção de oportunidades genuínas face ao capital disponível está fortemente enviesada para a espera. Se está a negociar ativamente todas as semanas, provavelmente está a gerar custos de transação e a responder ao ruído, não a investir.

As melhores decisões de carteira que tomei foram entradas em períodos de pânico genuíno — Grécia em 2011, o drawdown de COVID em 2020, o choque de taxas de 2022 — e saídas quando o desconto se fechou. Entre esses momentos: monitorização ativa, sem negociações.

Este site — averin.com — é onde registo a análise por detrás dessas decisões. Não é aconselhamento. Não são recomendações. Um registo contínuo de como penso sobre os mercados, com posições quando são relevantes.

— Ruslan Averin

A
Ruslan AverinInvestidor e Analista de Mercado

Escreve sobre alocação de capital, risco e estrutura de mercados.